Meio tempo, tempo inteiro.

Torre da Igreja, praça central de Pistoia

As mesas do café estão lotadas. Ficam diante do grande pátio quadrado, calçado com pedras gastas que já não tem mais idade! Todos os prédios em volta são do período medieval. Você gira, 360 graus, e a sensação é de que cavaleiros com lanças e armaduras e carruagens velozes vão cruzar a sua frente, atravessando a praça. É um marrom que não é cor. É o tempo, que se inventa e recomeça a cada dia um “novo tempo”. Como se fosse milagre tudo aquilo existir ali, daquele jeito. As pessoas, pistoieses, passam com a maior naturalidade. Os que estão no café não se abalam pela imponência das fachadas. Alguns turistas se distraem com as fotos, mas para os europeus, praças medievais não são necessariamente uma novidade. O que surpreende e até mesmo revolta é ver alguém passar e lançar ao chão a bituca do cigarro. Nunca imaginei ver esta cena na Itália, ou em qualquer lugar da Europa, protagonizada por um morador local. No meio da história, deste museu vivo e aberto, debaixo daquele céu azul de verão o mesmo homem que dispensou o cigarro ainda aceso vem e cospe naquele calçamento centenário. Educação, aqui como lá, ainda é um artigo de luxo.

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Mobilização permanente

É comum a gente ouvir de pessoas que acompanham a cobertura jornalística sobre política comentários em tom de desabafo, dizendo que “isso nunca vai mudar” ou “não adianta noticiar, porque nada acontece com eles” (se referindo a políticos denunciados por má administração de dinheiro público, corrupção e outros crimes).
Hoje, a Assembleia Legislativa do Paraná divulgou um balanço das medidas de corte de gastos e enxugamento da máquina, responsáveis por uma economia de aproximadamente 3 milhões de reais por mês. De janeiro até agora, a nova direção do Legislativo afirma que devolveu ao Governo do Estado 20 milhões de reais, relativos ao dinheiro que deixou de ser gasto com a adoção de medidas administrativas simples. Recursos que puderam ou poderão ser aplicados em outras áreas, como saúde, segurança, educação.
No ano passado, participei da série de reportagens “Diários Secretos”, produzida pela RPCTV e pelo jornal Gazeta do Povo, empresas do Grupo GRPCOM. O trabalho investigativo, feito por quatro jornalistas jovens e determinados, de grande talento (James Alberti, Katia Brembati, Gabriel Tabatcheik e Carlos Kolbach) e que ganhou a valiosa contribuição de vários profissionais da tv e do jornal, revelou crimes que foram confirmados pelo Ministério Público e que foram responsáveis por desvios de mais de 100 milhões de reais do Orçamento da Assembleia. Dinheiro suado, que vem dos impostos de gente que trabalha e que foi parar no bolso de um grupo que dominava a administração. Diretores da Assembleia foram presos, denunciados à Justiça e demitidos. O pequeno grupo que controlava os gastos, as contratações de funcionários fantasmas por meio de atos secretos e ilegais, foi expurgado dos gabinetes também secretos, aos quais os jornalistas e os cidadãos não tinham acesso.
É cedo para afirmar que a Assembleia está “saneada”, pois ainda há muitas perguntas sem resposta, muitos números não divulgados, muitas aposentadorias concedidas de forma irregular e outras “contas” que a sociedade paranaense ainda está pagando. Mas já é possível concluir que as denúncias divulgadas na tv e no jornal, as manifestações e os protestos nas ruas, a pressão da opinião pública e o trabalho dos promotores de justiça que ainda investigam os crimes, tudo isso obrigou a nova gestão do Legislativo a tomar as medidas de austeridade. Isso significa que “as coisas mudaram” e “o dever de noticiar ajudou a apontar e punir os responsáveis”.

Por mais que o povo do Paraná espere novas ações por parte do Ministério Público e ainda aguarde decisões do Judiciário que (permitam a redundância) “façam justiça” e contribuam para resgatar de alguma maneira o respeito do eleitor pelo Poder Legislativo, determinando, inclusive, a devolução do dinheiro desviado, já é possível afirmar com certeza que algo mudou. Algo está mudando. Mas a sociedade não pode se conformar, se contentar ou se acomodar. A vigilância não pode esmorecer, a cobrança não admite trégua. O cidadão, o eleitor devem se manter atentos, mobilizados e prontos a ir para as ruas, se for necessário, para evitar que o descalabro e a gestão secreta e fraudulenta ressurjam, nos porões escuros e contaminados da corrupção e do desmando. E, muito importante, considerar tudo o que aconteceu como parte de um aprendizado constante: o de saber escolher bem os seus representantes.

-Nunca é demais relembrar que a série de reportagens “Diários Secretos” foi vencedora da última edição do Prêmio Esso de Jornalismo, do Prêmio Embratel de Jornalismo e do Prêmio Latino Americano de Jornalismo Investigativo (YPIS), concorrendo em cada um dos concursos com os maiores veículos e alguns dos melhores profissionais da imprensa do Brasil e do continente.

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Parrachos

Pedra que se arrisca
mar adentro
e protege a praia 
contra os tubarões
do ódio e da desdita

rocha que brotou
da areia e do sal
endurecida pelo tempo
aprimorada pelo vento
a soprar ao longo da costa

raiz dos oceanos
onde o mundo navega
ponte para o continente
onde a terra se expande

somos a liberdade das ondas
muralha e trincheira
a trégua que rege
o movimento das marés
e revela a cor
que semeia o amor
por todo o litoral

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O mago da frigideira

Da dir.: Mario Pereira, sua linda neta Aurora e a esposa Analisa. No centro, Giancarlo, o mago da cozinha. O chef que faz o que "ele" quer que você coma!

No começo, Giancarlo era mau humorado, do tipo que responde “porque” quando você diz “bom dia”. Mas foi só a gente se conhecer melhor pra entender que era o cansaço, algumas frustrações, coisas da vida que entristecem qualquer um. Um mestre na cozinha, trabalhando sozinho, em meio à panelas, frigideiras e “pastas”, que ele preparava ao molho pesto (original, diz ele!), com frutos do mar, à bolonhesa, alho e óleo, de qualquer jeito. E os camarões…aqueles gigantes das profundezas de sal do tirreno (ou seria do Adriático?), que ele sabe como ninguém dar um toque de mestre. Depois de uns dias, Giancarlo nos recebia com “buon giorno” no café. E “buona sera” no jantar. Mas não adiantava preferir isso ou aquilo. Esse é um chef que faz o que ele acha que é melhor servir! Se você pedir a massa com molho normal, ele vai servir apimentada. Se você quiser comer carne, ele vem com mariscos e lulas. Gostou tanto do presente, que não tirou mais a camiseta da tv.

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O homem que fazia mingau

Da direita: Fabio Gualandi, com a esposa Ana e Mario Pereira

Em Gaggio Montano, Fabio Gualandi morava num vilarejo que se avista do Monte Castelo. O lugar era constantemente bombardeado na Segunda Guerra. Ele tinha 13 anos e conta que a explosão de uma granada deslocou o ar, soltando estilhaços e quase o matou. Soldados brasileiros fizeram da vila um abrigo. Protegiam as famílias italianas que viviam ali e outras que se refugiaram em casas de parentes. Ficaram amigos. Os brasileiros dividiam a comida, ao contrário de outros Exércitos, que costumavam enterrar o que sobrava para não dar à população local. Fabio cuidava da cozinha dos “brasilianos” e um dia aprendeu a fazer mingau com um pracinha que, enquanto mexia a colher, cantava “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”! Ele nunca esqueceu a canção. Fabio, que se livrou do facismo, ainda jovem, que viu os brasileiros ajudarem a libertar sua cidade, seu país, que assistiu a fuga dos nazistas, expulsos da região pela FEB, se emociona ao dizer que sua segunda pátria é o Brasil. Pátria que ele se orgulha de ter visitado 22 vezes, com a mulher Ana.

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Atrás da melhor imagem

Com Anderson Marcelino (Polaco) e Paulo Evaristo. Dois repórteres cinematográficos e grandes companheiros de trabalho

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Colosseo

Coliseu por dentro

O colosso de pedra é um vulto do tempo. Um corte na história que parece ter parado, mil anos atrás. Não há movimento, apesar dos milhares de visitantes indo e vindo todos os dias. Eles chegam apressados, de todas as partes, ocidentes e orientes mais longínquos. E esqueça tudo o que já viu e ouviu sobre filas. Sobre respeitar a vez, há sempre um turista querendo ser o primeiro a entrar, o primeiro a ver o que todos verão, segundos depois. Um grupo indiano posa para a foto com o nome da empresa da família num cartaz. Os dinamarqueses, pai, mãe, filhas, genros, quase lívidos de tão loiros, os peruanos e os brasileiros, movidos pela curiosidade de quem não teme a caminhada ao sol de junho em Roma. O coliseu assusta, num primeiro olhar. Impressiona depois da primeira piscada, apaixona no observar mais demorado. Causa arrepios, ao pensar nos inocentes martirizados. A realidade quer superar o tempo, enganá-lo, como se ali, nada mais houvesse. Ou ainda tudo estivesse como sempre foi.  Em cada centímetro da pedra, uma prova de que o tempo é veloz e inerte, a uma só vez. O tempo é ilusão de ótica, enquanto tentamos entender o que passou, no vôo da história. Roma é a arqueologia viva, uma escavação a cada esquina, uma autopsia do tempo.

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Um tempo, um lugar

A RPCTV na Itália

Praça de Vergato, ao lado do motorhome. Em junho de 2011, percorremos as regiões da Toscana e da Emilia Romagna em busca de lugares e personagens da Segunda Guerra Mundial. Há, ainda, muito a contar sobre a passagem dos brasileiros por lá.  De Vergato, trouxe várias lembranças. Terra de Umberto Magnani, que combateu ombro a ombro com os pracinhas da FEB. Terra de muitos outros “partiggiani”, brigadistas italianos que lutaram contra os nazistas, contra o facismo. Em Vergato se come uma pizza que só lá. Logo depois da foto, o dono de uma ótica reclamou que o motorhome atrapalhava as vendas. Saímos dali na hora, scuzza…

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Atrás da melhor imagem

O repórter cinematográfico Paulo Evaristo e o auxiliar técnico Rodrigo Brito. Enxergam e ouvem tudo. "Os caras"!

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Um pedaço da Ucrânia no Brasil

Cuidado com o bigode, Jorge! Tudo pela felicidade dos noivos!

MEU PARANÁ em Prudentópolis. O programa mostra o casamento tradicional ucraniano. O jornalista Jorge Narozniak, nascido na Ucrânia, um grande e querido companheiro, produziu tudo. E nos deu a honra de estar junto na gravação. Imagens de Paulo Evaristo dispensam comentários. E o áudio e a companhia em alto astral do Rodrigo Brito completaram o “serviço”. Trabalhar com pessoas como estas é um privilégio.

Para ver na íntegra:

Parte 1:

http://video.globo.com/videos/rpctv-meuparana/v/meu-parana-em-prudentopolis-1-parte/1626827/#/Meu Paraná/page/1

Parte 2:

http://video.globo.com/videos/rpctv-meuparana/v/meu-parana-em-prudentopolis-2-parte/1626828/#/Meu Paraná/page/1

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