nas areias do céu

Naquelas areias nunca mais as nossas caminhadas. Nem os sorrisos, nem os silêncios, desabafos, preocupações compartilhadas. Respiração ofegante, entre palavras entrecortadas por conselhos. Perguntas diretas, respostas nem tanto. Por que fostes embora? Ainda havia tanto a falar, a ouvir, tantas perguntas certeiras com respostas incertas. Me deixastes sozinho, agora, na areia tão imensa da praia. O costão de um lado, onde pescávamos quando eu era criança. As dunas do outro, onde caminhavas loucamente para pensar, para saber formular as perguntas certas. Não estamos mais, nunca mais estaremos ali. Entre tropeços, copos cheios e muita conversa. Teu olhar ‘inda brilha, tua voz persiste. E o que faço eu com esta saudade que me deixaste? O que faço com este vazio no peito? Com o velho tênis que parece querer falar, contando lembranças e pegadas? Agora sozinho, difícil dar o primeiro passo, os passos seguintes sem ti. Eu sei que naquela areia nunca mais, mas é como se te levasse comigo, sempre escolhendo o caminho, de acordo com o que havia para conversar. Nunca mais nossos trajetos, nem os conselhos. O que faço agora sem eles? Onde fica o norte e de onde é este vento que sopra, que tu sempre sabias dizer? Cheguei a imaginar que nunca partirias. Fiquei com algumas coisas, mas não sei o que fazer com o que sobrou do meu coração… Ficou o teu olhar no meu, o meu abraço no teu. E uma vontade incontrolável de te encontrar nas areias do céu, enquanto o sol não se põe de vez pra nós dois.

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“As Peças”

Nas águas protegidas, a paz e o sossego. Lugar onde o quando é mero detalhe. Aqui reina o sempre, o eterno descanso do pescador. Onde o capitão tirou os chinelos depois de longa jornada.

Os golfinhos, também chamados de botos, desfilam seu nado para quem quiser ver. O dorso brilha no sobe e desce das águas. Eles fizeram da ilha da Peças maternidade e criadouro. E não há de faltar para eles o peixe santo de cada dia.

Os moradores sabem da linguagem dos visitantes e da sua surpresa, diante da água morna e da vista esplendorosa. Conhecem o apetite de quem chega e servem a mesa que os deuses invejam. Basta um instante pra querer reunir os pedaços de uma vida que foram se extraviando pelo caminho. E não há melhor lugar no mundo do que esta ilha, para juntar e dar sentido às peças embaralhadas pelo tempo.

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Superagui, janeiro 2018

Quando a gente supera a “barra” e seus mistérios, entre ondas e baixios, a ilha surge e descortina o universo marinho. Entre terra e baía, os que já conhecem reencontram. Os que ainda não viram, descobrem.

Se a gente deixar, se a gente quiser, a gente “se” descobre. O que há por dentro e por fora da nossa parte náufrago, marinheiro, ilhéu. A alma que se perdeu, o riso, o pranto e todo o encantamento em cada canto da ilha.

Praia é para quilômetros de pegadas, braçadas nas ondas do que se vê e do que é só ilusão oceânica. Solidão. Liberdade. Paixão atlântica. Explicar sem entender, o que é história e o que não é nada nos acordes do fandango, só batida e conversa com os antepassados. Cultura.

Navegar é necessário, além do ir e vir, comunicar-se com o resto do mundo. O poente e o porvir, um amanhã que pode ser de sol ou de tempestade, não importa. A ilha nos faz esquecer de onde viemos, para onde vamos de volta. Desde que aqui pisamos, esta é a nossa casa.

Fotos: Vinicius Sgarbe

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caminhada

img_20161213_155936911Olhando pro céu, além das folhas da palmeira, o universo se expande na crença de que há muito mais de bom pra vir, do que aquilo que veio e nos derrubou neste período. A crença de que há muita gente boa a iluminar a vida da gente. De que está pra chegar um tempo novo, de descobertas e possibilidades. O que já foi, valeu os muitos aprendizados. O que virá, valerá novos passos nesta caminhada. Quem quiser, que venha junto. Nesta trilha, há espaço pra muitas outras pegadas.

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Quem diria

http://nandosevero.blogspot.com.br/2016/11/quem-diria-quem-diria-um-dia-seriamos.html

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publique-se

A foto do seu cachorro. O olhar instigante do seu gato. O pôr do sol incandescente. O vovô todo sorridente. O neto que acaba de nascer. O filho na festinha de aniversário. Um corolário de intrigas, denúncias, desabafos, frases feitas. Poemas de botequim, atribuídos inadvertidamente ao poeta que nunca os concebeu. O resumo do folhetim, aquela foto chinfrim, quando não, um impagável mico leão. O pão que acabou de sair do forno, o risoto que só você comeu e gostou. Aquilo que você não gostou, mas agora achou coragem pra dizer. O cantor desafinado, a versão old school daquela canção. O candidato que você odeia, o login no aeroporto, no hall do hotel, no boteco, na sala de espera daquele super vôo, no hospital com a enfermeira que lhe furou a veia. A mulher porque é bonita ou feia; o homem gato, a cara torta, a bunda gorda, o mundo humano bizarro, a enciclopédia animal, tudo importa. A vassoura que a diarista deixou atrás da porta, a novidade velha, de três anos atrás, que você descobriu agora. A faca contaminada, a poeira cósmica, o quati voador ou uma das muitas lendas urbanas. A antiga lata de água raz, um monóculo, binóculo, uma fita K7 ou qualquer velharia que você já tenha usado e queira descobrir quem também usou. A imperdoável foto de sunga, biquini, saída de praia, chapelão e óculos escuros, como se fosse possível alguém não notar. Aquela cena inesquecível no altar, a outra com os padrinhos. A ofensa disfarçada, a indireta mesquinha ou no vale-tudo, aquele indigesto palavrão. Que se dane, que se publique. Porque vai bombar. Ou antes que um outro faça.

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indo pro sul

Uma tarde vazia pelo vazio das pessoas. Mas cheia de alento e esperança. Indo pro sul. E pronto. E basta. There´s no fog ahead.

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