Fonte dos desejos

Fontana di Trevi

Diante da fonte dos desejos, tudo é pequeno ou grande demais. Uma ou duas ou três. O que se quer ganhar define quantas moedas jogar. Não jogá-las, nem pensar. Realizar depende do quanto se acredita. Dólar, euro, penny, iuan… A piscina azul está repleta delas. Fortunas diárias em troca dos mais variados pedidos. A fonte dos trevos tem uma mística que magnetiza. Se quem tem boca vai à Roma, quem tem sonho passa por aqui.

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O medo, por Mia Couto

Texto do escritor moçambicano, dono de uma lucidez, uma sensibilidade, uma sinceridade dilacerante, lido por ele mesmo.

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O acaso e a intenção

A palavra se partiu ao meio. Tudo confusão. Um dia que veio sem explicação. Apenas pra virar a página do calendário. Um roubo imaginário do que ele já não tinha. Há lágrimas que sangram também na gente. Como ver uma criança chorar de fome. Coisas que se parecem, também parecem diferentes. É nítido, pressente a chegada de uma virada do tempo. Sofrer de amor é indiferente pra quem não sente. Por isso, a gente entende e desentende. Como aquela velha canção…Oh, Lord, please don´t let me be misunterstood.

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O melhor Bom Dia

Renato Machado está voltando para Londres, como correspondente da Globo. Para mim, um dos jornalistas mais brilhantes que já conheci. Tive a honra de trabalhar perto dele, no Rio, em 1999. Eu cobria a “madruga” e quase todo o dia tinha um vtzinho pra oferecer pro Bom Dia Brasil. A Isabella Dutra era editora. A Clarinha também. Boas lembranças, uma grande equipe, que me ensinou muito. É um privilégio, uma sorte ter profissionais assim na vida da gente. Só posso desejar mais sucesso ainda ao Renato. E ao Chico Pinheiro, outro grande profissional e uma figura admirável! Abraço ao Renato, ao Chico, à Renata e a todos que fazem desse o nosso melhor Bom Dia, todos os dias.

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Camaiore livre

Camaiore: a cidade "vigiada" do Monte Prano

A comuna de Camaiore, na província de Lucca, região da Toscana, era um reduto fascista. Fica aos pés do Monte Prano, de onde os alemães tinham uma visão privilegiada de tudo o que acontecia lá embaixo. Foi a segunda cidade libertada pelas tropas brasileiras da FEB, com a ajuda dos “partiggiani”, integrantes de brigadas livres que também combatiam os nazistas. Lá, entrevistamos dois personagens marcantes desta história. Moreno Costa foi o primeiro a perceber a chegada dos nossos pracinhas, num jipe americano. Saudou os libertadores como velhos amigos, como se fossem anjos. Terminada a Segunda Guerra, foi trabalhar como desativador de minas. Viveu outro conflito, depois de ter escapado da morte no primeiro. Um italiano com voz forte, parecia um locutor de rádio ou um ator dos filmes de Fellini.

O outro foi Alessandro Pauli. Ele ajudou os brasileiros transportando munição para o alto do Monte Prano, que conhecia como ninguém. Tinha dezoito anos e o irmão dezesseis. Os dois arriscaram as vidas para colaborar com os pracinhas da FEB. Na conversa, lembrou de quando eles encontraram um pelotão de alemães que desconfiaram da atividade daqueles jovens que perambulavam pela montanha. Lutou para ver a sua Camaiore e a sua Itália livres. Venceu. Dias depois de voltarmos ao Brasil, soubemos que Alessandro faleceu com problemas decorrentes de uma leucemia. Tinha 83 anos e mostrou orgulhoso a associação de montanhistas que ajudou a criar. Contou que ainda escalava o Monte Prano. Não uma vez por mês como fazia antigamente, mas pelo menos duas vezes por ano! Onde estiver, acredito que ele deve continuar “guiando” os mais jovens na subida da montanha que tanto amava. Evoé Alessandro!

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Do Sem Fim

Jornalista, cineasta, fotógrafa, blogueira...o que mais, hein, Valéria?

Valéria del Cueto em seu apartamento no Leme. Pra mim, o canto mais aconchegante do Rio. Profissional multifunção, que esbanja talento em tudo o que faz. Criadora do “Sem Fim”, um dos projetos mais intrigantes e criativos que eu conheço. Tem o cinema nas veias, onde corre também muito samba. E as violas de cocho, assim como a “cordeona” fronteiriça. Dividida entre Cuiabá, o Rio, Uruguaiana, Valéria tece pela rede um tricô cheio de malícia e informação, que ela trama pela ponte virtual, pelas conexões cibernéticas. Ela está sempre sabendo de tudo. E quando eu digo tudo (isso inclui incursões pelo I Ching)…

“Bruxinha”, como é carinhosamente chamada, é também marqueteira de campanhas e uma sábia guru. Sempre é bom ouvir o que esta mulher pensa e diz. E sempre é bom estar com ela pra poder ouvir. Dos últimos trabalhos de Valéria, um deles me fascina. O registro fotográfico que ela tem feito da Escola de Samba Mangueira. Desse registro, pude ver as fotos de um encontro da Velha Guarda. De arrepiar. Coisas que só a Bruxinha sabe fazer.

SEM FIM….
http://valeria-delcueto.podomatic.com/entry/2011-08-30T22_22_48-07_00

e também: noGargalo

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Museus e bugigangas

Barracas de vendedores de rua em Florença, capital da Toscana. Cidade da moda, berço do Renascimento italiano

O charme dos prédios históricos de Florença e os ricos museus da cidade não resistiram à invasão das barracas que vendem todo o tipo de roupa, lenço, cinto, bolsa e bugigangas. Passando por ali, foi inevitável ouvir: “Ô da Globo, filma nóis aqui”! Sim, entre os vendedores alguns são brasileiros sim. É o país exportando o mercado informal e os profissionais que vivem do comércio de rua. Mas também tem indianos, paquistaneses e orientais. “Tá baratinho, freguesa. Vamo chegá!”, claro, dito em italiano com aquele sotaque inconfundível…

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Do Pantanal à Palestina

A planície é grande. Começa aqui e vai embora, às vezes seca como
deserto, empoeirada. Ora úmida ou alagada, submersa. O Pantanal é
infinito ao olhar. Se perde de vista, até encontrar uma elevação,
colina ou montanha. Terra que se estende campo afora, vira um risco
d´água no horizonte, engana olhar e pensamento.

Os quintais resistem, até encontrar montanhas de concreto, que vão
empilhando gente e sonhos. Vidas que se organizam em pisos, andares,
pavimentos. Os quintais sobrevivem, com ou sem cerca ou muro. E vão se
unindo, vão se juntando uns aos outros até os limites do bairro, da
cidade, do estado, do país, do continente. Criando amizades,
construindo relações, tecendo culturas. Até molharem os pés num
oceano, aquela eternidade imensa de água que é ainda maior do que o
Pantanal.

As divisas e fronteiras atravessam gente, armas, doenças, comida,
livros e mercadorias. Integram e dividem povos, como Israel e
Palestina. Árabes e judeus, que um dia já foram parentes e hoje
guerreiam pelos quintais, erguendo cercas que cortam profundo e muros
que afastam.  Fazendo separar os sonhos, em limites que podem punir
com pedra, cuspe, tiro e morte.

O chão, sagrado ou não, também é morada, quando a gente parte dessa
para, lá de cima, ver tudo com outros olhos. Vista sem retinas. Um
dia, o solo tão disputado vira cemitério, buraco pro caixão. Não mais
a roça, o oásis, o éden, o assentamento e a promessa de redenção. E
aí, tudo o que se lutou, todas as brigas, as guerras, as pedras
lançadas e as balas atiradas contra o outro, viram nada, perdem o
sentido. Quem sabe, o carrasco e a vítima se encontrem frente a
frente, em igualdade de condições…

Esforços diplomáticos para relaxar as tensões se repetem, ano a ano,
mas são sempre manipulados por interesses políticos e embalam paixões
alimentadas pelos extremismos e por visões radicais. Pela sede
insaciável de poder.

Cem anos atrás, um sábio que correu o mundo espalhando a paz,
estimulando a cooperação e a unidade entre os povos, afirmou que as
lutas por domínios e fronteiras são inúteis. ´Abdu´l-Bahá, conhecido
como o “Mestre”, figura que inspirou o livro com o mesmo nome, do
escritor libanês Khalil Gibran e que chamava os homens a se libertarem
de antigos dogmas e mentiras históricas, escreveu: “Enquanto esse
arremedo do passado persistir, as bases da ordem social permanecerão
sem sustentação, à mercê dos quatro ventos, e o gênero humano,
continuamente exposto aos mais temíveis perigos.”

O Mestre foi mantido preso por mais de quarenta anos, Ele mesmo vítima
da intolerância e da perseguição religiosas, pois professava uma Fé
Universal, livre de preconceitos e radicalismos. Era um peregrino do
amor, da convivência pacífica entre as nações, da educação como única
fonte de desenvolvimento material e amadurecimento espiritual dos
seres humanos. Há mais de cem anos, declarou em uma de suas famosas
palestras: “A paz tem de ser estabelecida, primeiro, entre os
indivíduos, para que resulte, afinal, na paz entre as nações.”

O planeta cede lugar à exuberância de água doce do Pantanal e aos
universos de ondas e sal dos mares e oceanos, numa coabitação pacífica
e equilibrada. Sem guerra entre água doce e salgada. Os seres humanos
procedem da mesma matriz. A mesma raiz que se multiplica numa
diversidade incrível de cores e idiomas. Se dos dois lados da
fronteira, israelenses e palestinos fecharem os olhos e se imaginarem
vendo a si próprios lá de cima, como espectadores do conflito aqui
embaixo, talvez possam “enxergar” que os limites dessa vida estão
muito mais além de uma linha imaginária ou do quintal do descanso
eterno.

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A ponte feita em um dia

Ponte della Madallena sobre o rio Serchio, em Borgo a Mozzano

Ela também é conhecida como a “Ponte do Diabo”. Reza a lenda que foi construída em um dia por “ele”. Na Segunda Guerra, os brasileiros que lutavam na Itália chegaram a esta encruzilhada. Precisavam atravessar para o outro lado do rio, com jipes e tropas. Mas as bombas e granadas disparadas pela artilharia alemã tornavam a travessia um enorme risco. Um velhinho, olhando a cena e instigado pela dúvida dos “brasilianos” se aproximou e disse: podem cruzar em segurança. A ponte foi construída pelo diabo em um dia e já resistiu a muitas enchentes. Não serão as bombas agora que vão destruí-la! Os pracinhas resolveram acreditar e apostar na crença. Lá se foram os jipes, em meio às explosões. Aí está a ponte para quem quiser acreditar que, seja lá quem a tenha erguido, fez a obra para durar…

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Nas trilhas de Rondon. O Brasil desvendado por Cacá de Souza.

O jornalista e documentarista Cacá de Souza, às vésperas de lançar seu novo trabalho

Cacá de Souza, paulistano radicado em Mato Grosso há quase 30 anos, é uma referência quando se fala em Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958). O jornalista pesquisa a vida e a obra do Marechal Rondon desde antes de nos conhecermos, em Cuiabá, em 1995. Embalado pela curiosidade em desvendar detalhes da trajetória deste controvertido personagem da nossa história e pela paixão por Mato Grosso e pelo Brasil, Cacá mergulhou em livros, artigos, fotos e filmes que registram de um modo ou de outro as aventuras, descobertas, as viagens de Rondon. Só o esforço que ele vem empreendendo para estudar, compreender e divulgar o trabalho deste brasileiro ilustre, já vale um livro e um documentário! Tive o privilégio de acompanhar parte desta pesquisa, desta investigação jornalística a que Cacá se dedica aqui e nos Estados Unidos. Lá, ele redescobriu arquivos inéditos em fotos e filmes de expedições promovidas por Rondon. Uma delas, em parceria com o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que desbravou terras do cerrado e da Amazônia, em busca de conhecimento científico, de pesquisas que envolviam a biologia e a geografia, a sociologia, a antropologia. As descobertas de Cacá estão no primeiro documentário que realizou sobre a Expedição Roosevelt-Rondon, por terras brasileiras, no começo do século XX. Agora, Cacá se debruça sobre outro aspecto curioso do perfil de Rondon: o cartógrafo. O homem que mapeou rios, divisas, estendeu linhas de telégrafo, fincou marcos de fronteira, estabeleceu limites geográficos que desafiam até hoje a precisão do GPS! É preciso conhecer melhor quem foi Rondon, o que motivou seu trabalho, uma contribuição imensa para se saber onde começa e onde termina o Brasil. E, sobretudo, conhecer a maneira magistral e densa com que Cacá, outro gênio brasileiro, vem produzindo este legado histórico e jornalístico, de forma corajosa e independente, verdadeira e apaixonada.

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