Do Pantanal à Palestina

A planície é grande. Começa aqui e vai embora, às vezes seca como
deserto, empoeirada. Ora úmida ou alagada, submersa. O Pantanal é
infinito ao olhar. Se perde de vista, até encontrar uma elevação,
colina ou montanha. Terra que se estende campo afora, vira um risco
d´água no horizonte, engana olhar e pensamento.

Os quintais resistem, até encontrar montanhas de concreto, que vão
empilhando gente e sonhos. Vidas que se organizam em pisos, andares,
pavimentos. Os quintais sobrevivem, com ou sem cerca ou muro. E vão se
unindo, vão se juntando uns aos outros até os limites do bairro, da
cidade, do estado, do país, do continente. Criando amizades,
construindo relações, tecendo culturas. Até molharem os pés num
oceano, aquela eternidade imensa de água que é ainda maior do que o
Pantanal.

As divisas e fronteiras atravessam gente, armas, doenças, comida,
livros e mercadorias. Integram e dividem povos, como Israel e
Palestina. Árabes e judeus, que um dia já foram parentes e hoje
guerreiam pelos quintais, erguendo cercas que cortam profundo e muros
que afastam.  Fazendo separar os sonhos, em limites que podem punir
com pedra, cuspe, tiro e morte.

O chão, sagrado ou não, também é morada, quando a gente parte dessa
para, lá de cima, ver tudo com outros olhos. Vista sem retinas. Um
dia, o solo tão disputado vira cemitério, buraco pro caixão. Não mais
a roça, o oásis, o éden, o assentamento e a promessa de redenção. E
aí, tudo o que se lutou, todas as brigas, as guerras, as pedras
lançadas e as balas atiradas contra o outro, viram nada, perdem o
sentido. Quem sabe, o carrasco e a vítima se encontrem frente a
frente, em igualdade de condições…

Esforços diplomáticos para relaxar as tensões se repetem, ano a ano,
mas são sempre manipulados por interesses políticos e embalam paixões
alimentadas pelos extremismos e por visões radicais. Pela sede
insaciável de poder.

Cem anos atrás, um sábio que correu o mundo espalhando a paz,
estimulando a cooperação e a unidade entre os povos, afirmou que as
lutas por domínios e fronteiras são inúteis. ´Abdu´l-Bahá, conhecido
como o “Mestre”, figura que inspirou o livro com o mesmo nome, do
escritor libanês Khalil Gibran e que chamava os homens a se libertarem
de antigos dogmas e mentiras históricas, escreveu: “Enquanto esse
arremedo do passado persistir, as bases da ordem social permanecerão
sem sustentação, à mercê dos quatro ventos, e o gênero humano,
continuamente exposto aos mais temíveis perigos.”

O Mestre foi mantido preso por mais de quarenta anos, Ele mesmo vítima
da intolerância e da perseguição religiosas, pois professava uma Fé
Universal, livre de preconceitos e radicalismos. Era um peregrino do
amor, da convivência pacífica entre as nações, da educação como única
fonte de desenvolvimento material e amadurecimento espiritual dos
seres humanos. Há mais de cem anos, declarou em uma de suas famosas
palestras: “A paz tem de ser estabelecida, primeiro, entre os
indivíduos, para que resulte, afinal, na paz entre as nações.”

O planeta cede lugar à exuberância de água doce do Pantanal e aos
universos de ondas e sal dos mares e oceanos, numa coabitação pacífica
e equilibrada. Sem guerra entre água doce e salgada. Os seres humanos
procedem da mesma matriz. A mesma raiz que se multiplica numa
diversidade incrível de cores e idiomas. Se dos dois lados da
fronteira, israelenses e palestinos fecharem os olhos e se imaginarem
vendo a si próprios lá de cima, como espectadores do conflito aqui
embaixo, talvez possam “enxergar” que os limites dessa vida estão
muito mais além de uma linha imaginária ou do quintal do descanso
eterno.

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Uma resposta para Do Pantanal à Palestina

  1. Meu Amigo,
    lindo texto, me senti olhando este lugares, observando a diversidade de culturas, crenças e desafios que estão a nossa frente. Sempre o Mestre ..que exemplo!
    Parabéns! minha esposa vai ler este seu Trabalho!
    continue ,assim, de forma singela , mais eficiente a mudar o rumo da história!
    abraços!

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