Na Boca Maldita eu garimpo benditas falas de passantes, sob o azul imponente de um céu de inverno. Pergunto e as respostas me ensinam. Sorrio e os sorrisos retribuem o cuidado e a atenção que eu procuro ter com quem está disposto a dizer o que pensa. Um minuto para quebrar o gelo e para estreitar uma ligação que vale pra sempre. O que tem a ver a foto? Absolutamente nada. Só janelas a espiar.
Não, eu não preciso da vastidão do mar em apneia. Tampouco o bungee jump na vertical da ponte suspensa. Nem me arvoro a querer tudo o que a terra pode me dar, sem que eu precise plantar. Hoje eu prefiro ficar ali na rebentação, onde as ondas sobem embalando meus sonhos e descem me fazendo sentir um pouco, só um pouco de medo. Hoje não vou em busca da aventura, da ventura da felicidade. Ela virá. Ela já está. Quero ficar ao sol, surfar no swell da saudade, da vontade de me deixar levar pelo que foi e o que virá. Sem traumas, cercado apenas pela brisa que traz uma promessa de liberdade.
Cada vez que o sol se põe, eu choro. Lá se foi um dia, em que meu coração bateu, sofri, chorei, sorri e nem sei se fui feliz. Cada vez que o sol se deita diante dos meus olhos, é um drama. Uma chama que se apaga. Um fogo que se vai. Eu sei que ele continua a brilhar quando vai dormir, lá no “fim” do mar. Lá onde o olho não vê mais, onde tudo é despedida. Eu sei que ele se vinga, porque hoje não vou vê-lo mais. Eu sei que há mais do que um pôr de sol e um fim de tarde. O ocaso de uma dor. Desde o momento em que o sol nasce e morre, há uma vida, muitas vidas, há uma roda inteira a girar. Mas cada vez que isso acontece, que ele aparece, de manhã cedinho, é um fogo que renasce. Porque eu sei que ele virá, já está vindo, já está aqui. De novo e de novo e pra sempre. E eu vou reter o brilho desta luz nos meus olhos, o calor vai novamente me tocar. O sol está vindo hoje e amanhã. E com ele minha esperança de estar vivo. E é isso que há.
A sugestão e o convite para ouvir o Jack White e sua banda Raconters foi do Lunaé Parracho. Ele sempre descobre coisas que a gente não ouve todo dia, tem a sensibilidade de pesquisar, ouvir e mandar pra gente. Essa canção de amor me remete ao clássico “Don´t let me be misunderstood”, celebrizado na voz de Joe Cocker, de Nina Simone e que tem até uma versão cigana e dançante com o grupo Santa Esmeralda (nossa, a idade grita e me espanta!) e que já postei, eu acho, em algum momento. Isso tudo, de postar músicas, também me remete ao tempo em que eu escrevia crônicas sobre música e bandas, artistas, novos discos num semanário em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul. Eu estava lá com os meus 17 ou 18 e o Rúsbel Nicola, jornalista experiente, contratou o foca sem diploma (!) pra preencher um canto de página no impresso que ele lançou depois de sair d´A Plateia, um tradicional diário da fronteira. Bom, mas isso é papo pra outra vez….rs…. Curtam esse Jack White, que já tem um trabalho incrível com o White Stripes, de rock´n roll visceral… é um guri danado que adora tocar guitarras de plástico ou instrumentos velhos, que encontra no lixo, um cara super talentoso, um virtuoso na guitarra, um baita músico (aqui curiosamente pilotando um teclado)!
Os “velhinhos” ainda cantam. E dizem que a gente precisa ensinar nossas crianças, alimentá-las em seus sonhos, fazer com que não tenham medo de monstros e outros bichos papões, não transferir nossos infernos a elas. E que a gente nunca pergunte a elas por que… se elas disserem, podem nos fazer chorar… O passado é apenas um tchau!
Em tempos de quebradeira, pedrada nos vidros, ataques mascarados disfarçados de revolução, pobreza total de espírito, quando a ideologia partiu (!), foi tudo ladeira abaixo, só restou o farrapo humano do Luiz Melodia, esse tradutor infalível da cena-coração. “Com caco de telha, com caco de vidro…da melhor maneira possível!!!” E com a sonora, talentosa, swingada batida do violão mágico de Renato Piau, com quem trabalhei no Globo Ecologia. Axé Luiz, Axé Renatinho!!!