última que morre

Esse nosso tempo está cada vez mais estimulante, graças à tecnologia alucinante. O mundo na palma da mão. A rede que alcança a tudo e a todos. A liberdade de dizer o que penso, sem responsabilidade, nem punição. A democratização da mídia, uma página com meu rosto onde cultivo os meus amigos virtuais. As frases banais, ditas assim, como eu nunca diria pessoalmente. As fotos sensacionais do meu filho, da minha viagem, do meu cachorro. As frases atribuídas a Pablo Neruda, que ele nunca sonhou escrever. Por falar nisso, quem é mesmo Pablo Neruda??? Eu só conheço o “Pablo” Coelho!!!

São tempos de ciência avançada. Descobrimos que em Marte tem rios de água salgada. Mas continuamos poluindo e matando os rios aqui na Terra. Tempos de extremas contradições… E tempos primitivos, de violência e selvageria fora do controle. A guerra do tráfico, à qual todos já nos acostumamos. A guerra do trânsito, da qual somos valentes soldados. Ousados nas manobras arriscadas, porque EU tenho que chegar primeiro. Tenho que buscar meu filho na escola, tirar meu pai da forca, ou só porque ninguém mais sabe dirigir e está ali pra atrapalhar o meu caminho. As guerras que mutilam e matam aos milhões. O terrorismo fundamentalista, que ainda não chegou aqui, mas que domina certos países, semeando ódio, preconceito, morte e destruição. Em nome das causas mais absurdas que se pode imaginar. Ou a aparente ingenuidade dos menores que invadem a praia no arrastão do fim de semana. Porque todos nós já nos acostumamos. Porque não vai dar em nada, porque a regra aqui é a impunidade.

Esses tempos barulhentos. O que incomoda não é nem tanto a batida musical do funk. E que me perdoem os que gostam de funk. Gosto musical é coisa subjetiva, de cada um. Mas o que dói no ouvido é o que diz a música que, entre outras coisas, classifica as mulheres como popozudas, preparadas e cachorras. Exalta o poder do fuzil, ostenta a estética da transgressão, naquilo que existe de pior. Experimente ir num baile funk pra ver. E não ouse errar o caminho traçado por aquela voz feminina eletrônica do GPS: se ela te levar pro reduto inviolável do crime, você pode morrer. O funk não é o vilão da história, é só uma expressão cultural, de shortinho curto e muito brilho. E até inspira discursos no Congresso. Ah, o Congresso… esse merece um filme, porque é quase uma obra da ficção. Só que não, ali está o país, nu e cru, com os seus, os nossos representantes eleitos.

Tempos de profunda inquietação. Em que a notícia da vez é a corrupção, em forma de propina. E o melhor argumento em defesa dessa conduta criminosa é de que ela sempre existiu. Dizem que estava em todos os governos, sempre esteve na Petrobrás, nas empreiteiras e…por que punir agora??? Vivemos tempos inacreditáveis. A estrada parece às vezes não ter saída. Apenas bifurcações. Neste caminho, seremos roubados, humilhados, desrespeitados. Naquele outro, pode ser tudo isso e ainda mais.

Agora estamos em tempos de crise. Uma nova crise, entre tantas que já tivemos. Crise parece ser a nossa rotina. Quase um sinônimo de Brasil!!!! Foi assim que aprendemos a sobreviver, a fazer milagres com o orçamento da família, a dar os nossos pulos, como o pessoal gosta de dizer. A crise pode ser passageira. Uma exceção. O que incomoda é ver a riqueza deste país, mal usada, mal empregada, mal administrada. Ver a educação pública indo pro buraco, enferrujada e maltratada. Como se não houvesse futuro. Ou ninguém se preocupasse com ele. Estamos desperdiçando gerações e gerações, há anos, há décadas. Quem sabe o arrastão, o funk, a propina, a corrupção, a violência, a política do toma-lá-dá-cá, a indulgência não são reflexos disso?

Mas também é um tempo de esperança. Porque tem muita gente boa por aí. Muita gente honesta, muita gente competente, muita gente de fé. Não me pergunte porque, mas o BEM, essa entidade mítica, que desafia definição, existe e opera seus milagres. É preciso ter esperança na ESPERANÇA. Não dizem que ela é a última que morre?

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2 respostas para última que morre

  1. Elizete Maria Schwartz Tietjen disse:

    O “Inacreditável” infelizmente virou rotina. O BEM e o que me mantem, olhando para frente, sem medo de desistir. Ainda tem gente boa sim concordo com você. A FE ela que nos move, e, mais uma vez concordo, ter esperança.

  2. Paulo Xavier disse:

    Uma esperançazinha (filhote do inseto esperança) perguntou à mãe. _ Mãe quando o mundo se acabar o que será de nós? A mãe respondeu: _ Se preocupe não filha, porque a esperança é a última que morre.

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