Operários da Amazônia, por Lunaé Parracho

“Cuando los satélites no alcancen…”
Texto e foto Lunaé Parracho, direto de Altamira/PA (em 16/11/11)
“Aqui se escreve de baixo pra cima e não de cima pra baixo”, desabafa Antônio – vestindo uma camisa da seleção brasileira que chama a atenção na margem escura da transamazônica em Anapu – como quem evoca a história da terra condenada com seus mártires caídos de bob dylan. São dez da noite e o seu ônibus vai chegar nos próximos minutos. E lembra da filha Juliana, 16, que ficou no Maranhão, “ela escreve da direita para esquerda, sabe? Parece que está escrevendo errado, mas quando você vai ler, está certinho”. Sorri o sorriso possível. “Estou com saudades dela”, diz.Nesta manhã Antônio foi acordado em seu alojamento no sítio Belo Monte tomado por policiais militares da ROTAM. Assustado, foi enfileirado sob a mira de armas com 140 companheiros de trabalho – todos recrutados pelo Consórcio no Maranhão para virem trabalhar na maior obra do país – e demitido com todos eles.Na sexta-feira, ele aceitara a sugestão de um gerente da empresa para representar os colegas descontentes com as condições de trabalho em belo monte. A revolta havia acendido no canteiro quando quatro trabalhadores foram demitidos por se recusarem a realizar um trabalho que estava fora de suas funções. Após o expediente, um grupo maior ameaçou tocar fogo no canteiro caso as demissões não fossem revertidas. Para tentar organizar as coisas e acalmar os ânimos, ao lado de José, Valter e Josivam, Antônio formou o que depois chamariam de “grupo que defendeu os direitos dos trabalhadores no ccbm consórcio construtor de belo monte” e iniciou uma negociação com a diretoria do canteiro, de quem ouviram a promessa de que ninguém seria demitido por conta das reivindicações. No sábado, paralisaram as obras até as 10 horas da manhã, quando se reuniram com representantes da empresa e apresentaram a sua pauta de reivindicações. As propostas seriam levadas à uma instância superior e um retorno foi prometido para o dia 24 deste mês.Após as demissões, os 4 foram impedidos de irem até Altamira – onde pretendiam procurar a imprensa – e escoltados pela polícia até Anapu, onde foram deixados na BR com bilhetes para um ônibus de volta para casa que só chegaria quase 10 horas depois. No canteiro de obras não há sinal de celular e os trabalhadores alojados ficam sem comunicação.Nós não tínhamos dinheiro para alugar um carro e corríamos contra o tempo para alcançá-los em Anapu. Ruy tentava agilizar por telefone com o motorista do único ônibus que seguiria pra lá nesse horário e que conseguimos pegar já na saída da cidade. O ônibus é pequeno e segue balançando o percurso inteiro pela estrada de terra. Uma das passageiras, Ciléia, está preocupada em encontrar um jeito de acomodar o filho de 3 anos que quer dormir. Ela não acha nada da barragem, só quer chegar logo sua casa, “Moro no Pacajá, mas nasci mesmo foi no Maranhão”. As vezes a gente tem a impressão de que todo mundo aqui tem origem nordestina. Maranhão, Pernambuco, Ceará, Bahia.. Gente que chegou aqui criança acompanhando os pais que vinham atrás da promessa de uma vida melhor. Do mesmo jeito que fez Antônio. “Belo Monte pra mim era um sonho. um sonho que virou pesadelo”..

Valter – o mais novo deles, que também trabalhou em Jirau – escreveu o manifesto que faz questão de ler pra gente:

“…Os responsáveis pelos trabalhadores alojados marcou uma reunião com os trabalhadores para ser feito as colocações das propostas, das quais os funcionários precisavam para trabalhar com salários justos e liberdade de expressão. Os trabalhadores do sítio selecionaram um grupo de pessoas para representá-los na reunião com a diretoria. O grupo escolhido sentou na mesa e apresentou as propostas de melhorias contínuas escolhidas e expressadas pelos trabalhadores. Foram reivindicados assuntos como: baixada regularizada, ajuste de salário, readmissão de funcionários demitidos sem razão, saúde com qualidade, etc. A mesa da diretoria levaram os tópicos em debate para aprovação. Apenas verbalmente prometeram analisar os casos e tomar as devidas providências de melhoria. O grupo fez as colocações e defendeu os direitos dos trabalhadores do CCBM (consórcio construtor de belo monte), no sítio belo monte. A diretoria pediu um prazo até o dia 24 do mês de novembro pra trazer os resultados da aprovação das solicitações feitas pelo grupo trabalhista. Porém esta decisão não chegaria a ser ouvida pelo grupo. No dia 16 do mês de novembro chegou uma lista com demissão de 141 funcionários recrutados na cidade de Estreito-MA pelo CCBM. Sem ação para defesa os Trabalhadores foram demitidos e encaminhados de volta à sua cidade… sem saber a decisão dos seus direitos exigidos pelos funcionários em geral.”

Preocupado, conta que o consórcio não quis nem dar uma carta de recomendação para eles. Demitidos – antes de completar um mês de carteira assinada – por lutar pelos seus direitos na grande obra do governo do partido dos trabalhadores. “A empresa usou a gente e jogou fora”, diz. As malas amontoadas, sentados à beira da estrada aberta por uma grande maioria de nordestinos como eles, os quatro não sabem direito o que vai ser daqui pra frente e têm medo de encontrar problemas para arranjar novos empregos.

O ônibus passa por eles sem parar, mas Valter corre atrás e consegue trazê-lo de volta.
Nos despedimos como se fôssemos velhos amigos, combinando de nos encontrar “pelo mundo, qualquer dia”.
Os quatro embarcam às 22:15.

Sem internet, sinal de celular ou ônibus pra voltar à Altamira, alugamos um quarto no hotel do Paulo – 15 reais por pessoa -, que fica ao lado da única farmácia 24 horas de Anapu, que à uma altura dessas estava obviamente fechada. Uns malucos sentados em roda nas cadeiras de um bar que já fechou, numa calçada da estrada seguem bebendo até bem tarde. Não tínhamos mais onde comprar cigarros quando o mais calado deles oferece um dos seus, irônico: “serve um marlboro?”. A marca do cowboy é o ouro dos fumantes na região. Em Altamira, só dois lugares vendem marlboro – fora a rodoviaria – e a um preço acima da tabela nacional.

Na volta, pegamos uma van até o canteiro, onde descemos pra confirmar se mais trabalhadores seriam demitidos. Um dos passageiros, Sebastião, olha atento através da janela como quem chega a um novo mundo, enquanto máquinas e caminhões seguem seu ritmo frenético na estrada. Sebastião vem de Rondon do Pará – há mais de 600 km – com a mulher e três filhos, em busca de emprego na “obra da barragem”.

“Vocês sabem onde eu posso me fichar?”

Os quatro de Belo Monte (foto: Lunaé Parracho)

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