Espetáculo romano

A renúncia de Bento XVI iniciou um período fértil na imaginação das pessoas. Primeiro, a investigação dos motivos do Papa ter se retirado de cena, abandonado o pontificado antes da morte, que normalmente é o que define a sucessão. Aí surgiram as mais diversas teses, com direito à teorias da conspiração, redes de intrigas com argumentos maquiavélicos, dossiês escabrosos que trouxeram à tona a crise moral e financeira na Igreja.

Num segundo momento, a cena se abre à eleição do novo Papa. Curiosamente, cada um que acompanha o evento católico vai aos poucos se tornando um especialista, um “vaticanista” como se costuma definir os que estudam e se dedicam aos assuntos da Cúria Romana. Um conhecedor de ocasião. Surgem os elementos comuns a toda eleição: candidatos, favoritos, líderes nas pesquisas e, sobretudo, bolsas de apostas nos cardeais papáveis, em italiano, a palavra é “papabile”. A cobertura jornalística se encarrega de fertilizar a criatividade, que faz brotar versões, biografias, perfis de um punhado de nomes elegíveis. Uma certa disputa entre nacionalidades, origens e a inevitável torcida, como numa Copa do Mundo dos Cardeais. A mística, o segredo das cerimônias fechadas a sete chaves, o burburinho da praça em frente à chamada Santa Sé, a tendência dos votos, a cor da fumaça. Tudo contribui para o show com toques de um grande espetáculo romano.

O Conclave gera enorme expectativa. E vai provocar ainda alguma surpresa, uma grande comoção. Mas o novo Papa, se ele quem for, não será capaz de injetar um novo ânimo espiritual no empreendimento de Pedro. Não há nada que ele possa dizer que renove a crença num Estado religioso milionário e distante da realidade. Apartado das graves demandas de uma humanidade que não sabe para onde vai, que se perde em meio a dúvidas, ambições descabidas, individualismo extremo, ignorância, materialismo e obscuridade. Não se espere, portanto, uma autoridade digna de inspiração, de admiração pelas nobres virtudes. O novo Papa, seja ele quem for, será o gerente de uma disputa de egos, vaidades e poderes cartoriais. Será o administrador da crise que desintegra e corroi as entranhas de uma instituição que já não é capaz de guiar e liderar nenhuma revolução.

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