O velho (para Mick Jagger)

O VELHO CAMINHA DE UM LADO PRO OUTRO. TENSO. INQUIETO. UM OLHO NO
TEMPO. O OUTRO NOS OLHARES FIXOS DAQUELA GENTE. TREJEITOS,
TIQUES NERVOSOS QUE O FAZEM SER RECONHECIDO, ENTRE OUTROS
TANTOS VELHOS ALI. NINGUÉM DUVIDA, NINGUÉM PERGUNTOU:
SERÁ QUE ELE SABE O QUE PODE? SERÁ QUE A IDADE O INCOMODA, O FÊZ MAIS SÉRIO, MENOS INTRÉPIDO? RESPIRAÇÃO ENTRECORTADA, O SUOR ESCORRE PELAS OLHEIRAS CANSADAS. UM GRITO – SERIA DE DOR? DE REPENTE, ELE ESTÁ MUDO. SÓ A PERNA BALANÇA, SOB O PESO DE DÉCADAS…
NEM TODOS VIVEM TANTO. SÓ TER SUPORTADO TUDO AQUILO, VISTO O
QUE POUCOS VIRAM (MUITOS JÁ NEM ESTÃO AQUI PRA CONTAR), JÁ É
UMA VITÓRIA, DIRIAM. BÊNÇÃO DE CHEGAR AONDE CHEGOU, A VELHICE
SENDO O PRESENTE. OS FILHOS, NETOS, MULHERES QUE TEVE. JÁ NÃO
SE ESPANTAM, ACOSTUMADOS AO JEITO MALEDICENTE, À MANIA DE
BALANÇARA CABEÇA SEMPRE QUE ALGO REPROVA, DA IRONIA E DAS
FRASES CERTEIRAS, MUITAS VEZES SÁBIAS, QUE VIVE REPETINDO, COMOSE FOSSEM REFRÕES. PERCEBE-SE OBSERVADO, FULMINADO POR TANTOS
OLHARES…SE ESTICA E BALANÇA O BRAÇO COMO NUM ACENO.
UM GEMIDO, UM OLHAR ACIMA DA CABEÇA – SERIA TEMOR DA HORA
SEGUINTE, DO QUE VIRÁ, O AMANHÃ? NENHUMA POSIÇÃO, NENHUM
CONFORTO, REMÉDIO, BEBIDA, NENHUMA DROGA, NADA PARECE
SATISFAZÊ-LO. ÀS VEZES SE PORTA COMO UM LOUCO SENIL, RANZINZA, DEDO EM RISTE; EM SEGUIDA, COM INVEJÁVEL LUCIDEZ SE ACENDE E SE APRESENTA COMO UM ANJO, TAMANHO ENCANTO E CARINHO SE TRADUZEM
SOB A VELHA CABELEIRA. O ANCIÃO CAMINHA COMO SE FOSSE A ÚLTIMA VEZ. COMO EXAURINDO OS ÚLTIMOS RECURSOS, A ÚLTIMA INSPIRAÇÃO, O DERRADEIRO SORRISO. OS QUE O OLHAM, SUSPIRAM JÁ DE SAUDADE. ERAQUERIDO, APESAR DE TUDO, DAS CRÍTICAS, DA INVEJA, NEGÓCIOS À PARTE. QUEM SABE QUANDO O VERÃO? SE NOVAMENTE O
VERÃO, JÁ QUE OINVERNO É PRENÚNCIO DE MORTE. ELE, QUE TANTAS VEZES ASSINOU O NOME SEM SE CONFESSAR CRISTÃO, REVELANDO ATÉ UMA CERTA
SIMPATIA PELO DEMÔNIO. VOCÊ NUNCA VAI FAZER DE MIM UM SANTO,
DISSE AOS GRITOS UMA VEZ.
O VELHO SE ERGUE, LEVANTA E ENSAIA OUTROS PASSOS. PARECE
RENASCIDO. REFEITO DE ALGUM SONO QUE O FÊZ POR UM MOMENTO
INERTE. COMO ACORDASSE DE UM SONHO EM QUE ERA LOUVADO PELA
MULTIDÃO, IMPRESSIONADA COM UMA FORÇA QUE NINGUÉM SABE EXPLICARCOMO OU PORQUE. CAMINHA AGORA EM RITMO INTENSO, MÃOS À CINTURA,BALANÇA AS CADEIRAS, PUNHO CERRADO, SALTITANDO, ALTIVO, LEVADO COMO UM MENINO, POR UMA ESTRANHA EMOÇÃO, A UM LUGAR PERIGOSO, UM TANTO ALUCINADO. UMA ENERGIA SEM
TER FIM. CANTAROLAVA UMA VELHA CANÇÃO, QUASE TÃO ANTIGA QUANTO ELE.
POR CERTO QUERIA COM ISSO DIZER ALGO. OU APENAS SE EXIBIR? SORRIA,
MALICIOSAMENTE, PARECENDO SE DIVERTIR COM AQUELES QUE O
JULGAVAM NO FIM, UM VELHO APENAS, UM TRASTE, PEÇA DE
ANTIQUÁRIO. A UM PASSO DA COVA, A UM PULO DO ABISMO.
E QUANTO MAIS AS RUGAS O MARCAM, ELE RI. PROMETE SER ASSIM
ENQUANTO VIVER. MAIS DO QUE TODOS OS SEUS CONTEMPORÂNEOS,
JOVENS OU VELHOS…ELE JÁ SE TORNOU ETERNO. (A Mick Jagger)

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