Linha e agulha

escrito em 03.12.08, sobre o reencontro com amigos que eu não via há muito tempo..

Eles não estão mais aqui. Mas continuam comigo, como sempre estiveram. Não por terem morrido, mas porque tomaram cada um o seu rumo.

Ainda ontem, meu jeans roçava o chão da calçada onde sentávamos. A tarde se recolhia e a noite chegava como grande promessa. E era assim. Foi assim por um tempo, até que nos separamos. Mas ainda sinto o cheiro daquelas madrugadas. Acordes de violão e as vozes cortando o céu escuro de São Paulo, onde brilhávamos feito estrelas perdidas, bêbadas, atônitas diante dos gritos dos loucos, dos berros da vida.

Ainda era ontem, mas o tempo não se perde, apenas se deixa contar, para ir lançando rastros aqui e ali, como um labirinto de pistas, de nomes, de datas. Quanto sonhei encontrar, de novo, aqueles rostos que tanto me ensinaram, que marcaram meus dias com sulcos profundos na alma. Qual é o tamanho de uma vontade, quando insiste todos os dias, em repetir: sim?

Por vezes tentei costurar os retalhos, panos amassados pelos meses e anos passados. Ora faltava a linha, ora a agulha falhava em alinhavar frases, gestos, feitos, risos, canções, abraços e lágrimas. Mas estava tudo ali, como numa cabala mística guardiã de amores, amizades, saudades.

Eles, tantos quantos conheci em todo este tempo, diziam: esquece! Você nunca mais vai vê-los. São Paulo engoliu meus desejos nas vezes em que retornei. Não sabia mais caminhar os trajetos, não conhecia mais o destino das ruas, que eu tanto dominava! Um dia derramando meu choro sobre uma lista telefônica, achei o nome Christina… Entre tantas cristinas, aquela era a mãe, não era a filha. Podem imaginar meu coração pulando da lista para a linha telefônica, zanzando no quarto de hotel, gemendo e gritando: achei! Entre tantas cristinas, eu encontrei a que procurava, pois achando a mãe, tinha achado a filha. Linha e agulha se encontravam para tecer os retalhos. Tecido intacto de puro amor de coração. Eu conseguia rever Cris e Bili, as duas, juntas na minha frente. E não havia incredulidade no mundo que pudesse me fazer duvidar de que eu era um cara de sorte. Era o tempo, gravando bordados na minha cabeça teimosa e fugidia. Sentimentos, apenas. Apenas?

Faz dez anos e eu cheguei a pensar: perdi novamente. Perdi para a força indomável do tempo e do vento. Se me apagaram as estrelas. A vida, novamente, como uma contra-maré, me empurrou para longe da terra, mar adentro das vicissitudes da vida. Minha rota me afastara e eu já não via ao longe o farol.

Engano. Quis a tecnologia que amedronta e fascina este ser talhado a martelo e formão, me dar mais uma chance. E eu encontrei uma foto e um nome que me fizeram ir ao céu da mais pura e infantil alegria. Era Joel que surgia, de novo, diante de mim, sem aqueles cachos dourados de anjo, dedos pequenos dedilhando um violão, mas era ele sim. E com ele vieram de novo o Cari, agora (e sempre) Paulo, também sem aquela melena morena, mas com o mesmo olhar meigo e misterioso que eu ainda via e vejo diante de mim, com as pernas cruzadas no meio da calçada. E de novo eu enxergava aquele sorriso maroto, guardado pra mim. Bili (agora Marisa) desvendou o segredo mais simples e complexo da existência: viver é só viver. E eu soube mais uma vez da Cris e do André, que um dia foi um cowboy chegado do norte, parecia bem maior do que todos nós, com uma sacola cheia de histórias de uma terra distante, das terríveis geleiras e dos desertos causticantes da América!

E agora os tornados trouxeram de ainda mais longe outra estrela daquele mesmo céu de 78. Bianca dizendo que um neto a fizera voltar. Que vó essa!? Ah, como eu me lembro daquele céu e de quando o sol se punha no fundo da minha janela. Eu chorei, Deus sabe quanto chorei. Mas era de pura felicidade. Um misto de querer pedir perdão se esqueci um só segundo o quanto vocês representam pra mim. E de gratidão, porque o Cara que comanda isso tudo parece gostar mais de mim do que eu imagino. E me deu de presente o mais novo presente, meus velhos amigos. Quanta falta senti de vocês…

Sim, vivemos cada um a nossa vida. E hoje são filhos, maridos, mulheres, trabalho, agendas, distâncias. Mas eu sinto que algo me move, como se eu mesmo quisesse me resgatar. Sinto que andei, me perdi, encontrei, e dei de cara com um vulto na esquina. Luiz, o lugar é aqui. 78….98….2008. São números que nos mostram que andamos. E agora, linha e agulha se movimentam para costurar outro tempo. Tecidos antigos, recentes, se amarram. A vela se enche: navego rumo à costa. Já vejo o farol. E as estrelas clareiam de novo este céu. Amo vocês.

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