No meio do mundo

O pátio do Colégio em São Paulo estava lotado. Em 1977, nos meus 16 longos anos de vida, era a primeira vez que veria ao vivo um show de Moraes Moreira, depois que ele deixou os Novos Baianos. Em disco, eu já tinha ouvido tudo que ele havia gravado. E eu era fã, seguidor fiel da trupe baiana, então, Morais com uma nova banda era um show imperdível.

Foi uma noite memorável. E aquela plateia instigada, dançou da primeira à última música. O som de Moraes era um swing elétrico de não deixar ninguém parado. Balançava até as portas e as janelas da escola. Fazia os vidros vibrarem. E a alma da gente também. Eu estava com um amigo roqueiro, que só sabia ouvir o peso do metal. E até ele curtiu aquele ritmo que trazia as cores de uma fusão musical quase completa. Do xaxado ao samba. Da bossa nova ao pop. Do baião à marchinha de carnaval. Do frevo ao reggae. Não era à toa que um dos músicos da banda era Armandinho, o inventor da guitarra baiana. O axé, como se conhece hoje, ainda não existia, mas acho que já estava ali à espreita bebendo daquela fonte. Dali em diante, Moraes produziu uma obra de grandes canções, carregadas de uma força poética universal e de uma alegria genuinamente popular.

A memória é traiçoeira, ainda mais levando em conta esse tempo todo. Mas o show terminou com uma versão alucinante de Preta Pretinha, mais elétrica e rápida do que eu já tinha ouvido. E no auge da empolgação, Moraes chamou e eu subi ao palco com alguns outros malucos. Cantamos ao lado dele, batendo palmas e sacudindo a cabeleira. O show bombou, embora as redes sociais ainda não existissem e nem essa expressão com o significado de hoje. Mas muita gente comentou e festejou aquela nova fase da carreira de Moraes. Naquela época, o sucesso em São Paulo era sucesso no Brasil inteiro.

No dia seguinte, passei na banca pra comprar um exemplar da Folha da Tarde, um antigo vespertino paulistano que eu costumava ler. E na foto principal em preto e branco, com a matéria do show, lá estava eu, ao lado do microfone do cara. Mostrei pra minha mãe que, incrédula, queria saber como eu tinha conseguido fazer parte daquele momento.

Confesso que eu fiquei alguns dias com aquela sensação de êxtase de estar tão perto de um dos meus ídolos mais queridos. E aqueles versos ecoavam sem parar na minha cabeça. Depois, fui a vários outros shows do Moraes em São Paulo, em que ele tocava acompanhado da Cor do Som, com os irmãos Dadi e Mu Carvalho, além do mestre Armandinho, entre outros músicos.  Uma banda que tinha muito a ver com ele.

Hoje, 13 de abril de 2020, 43 anos depois, recebo a triste notícia da partida de Moraes Moreira, que nos deixou aos 72 anos, ainda compondo e cantando, em plena atividade. E com o coração apertado, não consigo ouvir a versão clássica, original de uma das canções mais lindas que conheço: Acabou Chorare, do disco com o mesmo nome, gravado em 1972. Um poema musical ingênuo, quase angelical, mas que traz uma pegada hippie na sua essência de celebração da vida, quando se abre a janela de “manhã cedinho” e se vê o sol, embalado pelo mais puro som da natureza.  Essa canção me acompanha desde lá e me faz pensar num sofrimento, numa “barra pesada” que termina e depois que passa, fica “tudo lindo”. É assim que eu espero que você esteja agora, Moraes Moreira. Livre e leve, respirando fundo, no “meio do mundo”, já que “foi-se tudo pra escanteio”.

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